Ha mais de cinco mil anos


Os que foram e os que ficaram

 

O mundo é dividido entre os que foram e os que ficaram. A história das pequenas e das grandes tragédias tem algum capítulo sobre os que escaparam por pouco e os que não tiveram como fugir. A situação socioeconômica ou política de diversas regiões, freqüentemente, impõe aos homens as questões: a hora de buscar novos rumos é esta ou se pode esperar um pouco mais? Será necessário partir atrás de estabilidade hoje, ou em certo momento o cenário voltará a ser tranqüilo?

 

Durante a ditadura militar, no Brasil, foi necessário que muitas pessoas contrárias ao regime e perseguidas pelo governo se exilassem no exterior. Houve os que acabaram mortos aqui. Na época do Holocausto promovido pelos nazistas, em vários relatos, pequenos detalhes decidiram quem foi transportado para os campos de concentração e quem, na própria Europa ou migrando para outros continentes, sobreviveu. Existem exemplos fora da esfera de guerras e perseguições. Na crise econômica argentina da primeira metade desta década, houve um aumento no registro de migração de membros da comunidade judaica local para Israel. Gente que não pôde ou não quis esperar.

 

O Rio de Janeiro recebeu inúmeros imigrantes de outros países no século XX. Uma incursão atenta na genealogia de famílias judias, por exemplo, apontará que muitas delas estão no país há menos de três ou quatro gerações. Somente entre 1925 e 1935, o Brasil recebeu mais de 30 mil judeus da Europa Oriental, sendo que, aproximadamente, 15 mil se estabeleceram no Rio.

 

Minha família chegou ao Brasil nos anos 1930, fugindo a condições difíceis em seus locais de origem. Comparado às perseguições em outras partes do mundo, o país pôde ser considerado um paraíso judaico nos trópicos. O resultado é que marginalização e leis restritivas, como se viu em outros lugares, em nada combinam com a condição da comunidade judaica brasileira atual. O que se vê agora é uma integração completa dos judeus ao meio que os cerca.

 

Eles não precisam lutar para deixar a condição de cidadãos de segunda classe, nem se recolher às barreiras do gueto em determinado horário. Não há leis que os proíbam de ocupar qualquer cargo que seja, em qualquer atividade profissional. Dominam o idioma português e têm liberdade para praticar sua religião, ou manter sua cultura.

 

Os judeus não têm ou deixam de ter mais dificuldades que os brasileiros por serem judeus. Nesse contexto, sinto, cada vez mais, que os problemas do país têm influenciado o meu cotidiano: caos aéreo, crise de energia elétrica e níveis de criminalidade acentuados são alguns exemplos. Questões que põem em cheque o bem-estar das pessoas e contribuem para o comprometimento de suas liberdades.  

 

Até quando será possível tolerar as conseqüências desses problemas? Seremos capazes de resolvê-los? Se não conseguirmos resolvê-los, morar em outro país é uma boa solução? Se for necessário buscar esse rumo, até que momento isso poderá ser feito com tranqüilidade? Sob esse ponto de vista, o mundo é dividido entre os que foram e os que ficaram. Muito do que foi construído depois das pequenas ou grandes tragédias, deve-se à sensibilidade daqueles que souberam tomar a decisão na hora certa.



Escrito por Eduardo S. às 01h13
[ ] [ envie esta mensagem ]


Israel no Líbano e um judeu na diáspora

 

 

Algumas pessoas me perguntaram, desde o início dos ataques israelenses ao Líbano, sobre o que eu acho a respeito dessa nova guerra. Sinto muito, mas talvez minha resposta não satisfaça. A verdade é: eu não quero ter opinião.

 

O que não falta no Brasil é gente querendo ter opinião sobre o conflito. A ausência da minha não fará diferença. O jornal que assino exibiu nos primeiros dias da guerra a manchete sensacionalista “Sangue brasileiro no Líbano”, para relatar o drama de nossos conterrâneos vítimas dos bombardeios. Dias depois, estampou fotos de israelenses bronzeando-se em Tel Aviv, em contraponto a libaneses agonizando nos hospitais de Beirute. Tudo como se o Hezbollá fosse um clube de golfe.

 

Um grupo de parlamentares recorreu ao Itamaraty, para cobrar posição mais firme sobre a guerra. Enquanto isso, o edifício onde moro está cercado de grades, para evitar assaltos, e preciso avançar sinal à noite para não ser roubado. Há alguns meses, um motorista teve seu carro roubado na blitz falsa, em área que transito com freqüência. Bandidos queimam ônibus, políticos desviam dinheiro de impostos, sem terra destroem o Congresso, cidadãos são acomodados no chão de hospitais públicos, aulas param por causa de tiroteio na favela e crianças pobres trabalham, em vez de estudar. Quem está cobrando posição mais firme por nós?

 

Israel tem direito a se defender de ataques que ameacem a segurança de seus cidadãos. Mas não sou eu que vou aprovar ou desaprovar seus métodos. É uma questão para a sociedade israelense discutir. Estou tão distante que uma bomba em Haifa não alteraria o meu cotidiano, como a ameaça de um seqüestro relâmpago no Rio de Janeiro faria. Vale a pena sacrificar a vida de jovens soldados que poderiam estar curtindo uma boate em Eilat? Que poderiam estar se dedicando aos estudos na Universidade de Jerusalém?

 

Nem a sociedade israelense sabe. Um eleitor do partido de esquerda Meretz terá uma resposta diferente daquele que vota no direitista Likud. Mas a ambos cabe opinar, já que estão em Israel. Para mim, à distância, é muito bonito hastear a bandeira do pacifismo, enquanto um ônibus pode explodir do outro lado do Atlântico sem me ferir. Também é muito cômodo dizer que precisamos invadir o Líbano, enquanto desligo a TV para dormir e soldados de 19 anos vestem a farda para lutar. Sinto-me desconfortável em emitir opinião nessas condições.    

 

Apoiar uma guerra como essa é decidir até que ponto se está disposto a abrir mão da própria rotina para reconquistar a estabilidade desejada. É avaliar se a alternativa bélica, física e psicologicamente desgastante, compensa. É aceitar que se pode perder a vida em prol da mudança de cenário. Envolve questões fora do meu alcance, aqui no Brasil. Não acredito que eu tenha o direito de opinar da mesma forma que um sujeito nas proximidades do front.



Escrito por Eduardo S. às 00h37
[ ] [ envie esta mensagem ]


Ramallah ou Ramacá?

 

Discordo da ação do governo israelense, que, há cerca de duas semanas, prendeu 1/3 do governo do Hamas. Deveriam ter prendido 1/3 do nosso, no Brasil. E, talvez, ainda não fosse suficiente.

 

Uma homenagem em plena Copa do Mundo

 

A cena foi inusitada. Esperava-se de tudo. Discursos de protesto, graves demonstrações neonazistas e até mesmo terrorismo. Tudo isso, menos homenagem. Para mim, a Copa de 2006, na Alemanha, não ficará marcada pela crença de que poderia ter havido ali bombas e ódio. Nem pela frustração da torcida brasileira com Ronaldinho e seus companheiros. O fato é que, pela primeira vez, vi a bandeira de Israel ser erguida em público por um não judeu, sem que o objetivo fosse atear fogo nela.

 

Para quem não viu ou já não se lembra, o zagueiro John Paintsil, da seleção de Gana, agitou a bandeira para celebrar os gols de seu time contra a República Tcheca. Foi, em suas palavras, uma homenagem a Israel, já que atua no campeonato israelense de futebol pelo Hapoel Tel Aviv e gosta muito dos torcedores do país.

 

O comentarista esportivo egípcio Allaa Sadek parece não ter partilhado de minha alegria ao ver o gesto de Paintsil. Chamou o jogador de ignorante e estúpido. O governo ganês preferiu não tomar partido na polêmica e pediu desculpas à Liga Árabe pelo gesto do atleta. Pensando bem, muitos judeus e israelenses também não gostariam de ver caso similar com a bandeira palestina e exigiriam retratações.

 

São particularidades do Oriente Médio, onde ataque, defesa e artilharia não costumam ser meras metáforas futebolísticas. Cá entre nós, vale o ineditismo do gesto. Cansei de ver na TV a bandeira de Israel ser dilacerada mundo afora.

 

Israel 1970

 

Em 1970, no México, ocorreu a única participação da seleção de Israel em Copas do Mundo. No primeiro jogo, deu Uruguai 2x0. No segundo, empate em 1x1 com a Suécia. No terceiro, 0x0 com a Itália. Se não deu para passar da primeira fase do torneio, pelo menos o minian da Copa esteve garantido.



Escrito por Eduardo S. às 02h59
[ ] [ envie esta mensagem ]


Crenças

 

Do Brasil a Israel. Parti do Rio de Janeiro, a cidade onde já não se crê em mais nada, com destino a Jerusalém, a cidade onde há sempre motivo para ter fé em alguma coisa.


***

Lição do dia

 

Na rua Yafo, famosa via de Jerusalém, cheguei a uma casa de sucos. Meu objetivo era degustar os sabores mais tradicionais que jorram da terra santa. Depois de beber um suco de laranja, fruta símbolo do país, não consegui me lembrar como se dizia o nome de outra importante espécie israelense. E travei o seguinte diálogo:

 

– Vocês têm suco daquela fruta cujo número de sementes corresponde às 613 mitzvot?

 

Vendo que eu estava dando uma grande volta para fazer um pedido tão simples, o vendedor sorriu e replicou:

 

– Ah, Romã? Em hebraico, chama-se rimon. Mas não temos, não. Está fora de época.

 

Não matei a sede de rimon, mas matei a sede de saber.

                                                                                         ***
Responsabilidade

 

O primeiro pertence que precisei usar em Israel? Um mapa. O primeiro livro que me vinha à mente? O dicionário de hebraico. O primeiro local que procurei para buscar informações? A central de apoio ao turista. Eu era estrangeiro na terra que me prometeram. Estava perdido entre os indivíduos da minha própria nação.

 

Ao examinar o passaporte brasileiro, a encarregada do aeroporto se espantou:

 

– Seu sobrenome é Shor?!

– Sim, respondi. 

– Seus pais já moraram em Israel ou algo do gênero?

 

– Por quê? – Pensei comigo mesmo. Só posso ter o sobrenome sob essa condição?

Eu deveria ter respondido que meus antepassados estiveram no Monte Sinai, ali nos arredores, para receber um documento histórico de uma entidade muito importante; porém, mantive a postura sem querer soar irônico:

 

– Não. Eles nunca estiveram em Israel. Por quê?

– Porque seu sobrenome é em hebraico, tipicamente israelense. 

– Talvez pelo fato de eu ser judeu, emendei. 

 

A funcionária fez cara de aprovação, autorizou a entrada e me devolveu o passaporte. Foi uma excelente forma de me dar boas vindas. Mais tarde, já no hotel – no exato momento em que compreendi não ser a identificação com Israel uma simples questão de mapas, dicionários ou centrais de apoio ao turista – percebi a real dimensão do que presenciava. A conexão com a terra é algo mais transcendental. (continua no post abaixo) 



Escrito por Eduardo S. às 01h39
[ ] [ envie esta mensagem ]


Nas longas caminhadas pelas ruas; nos cartões postais a enviar; na minha barba por fazer; e no meu rosto seis anos mais velho desde a primeira vez que estive em Tel Aviv, senti-me parte da história da minha família. Nas pedras e nas sinagogas de Jerusalém, na face da população, na cultura judaica às vistas ou em um kibutz próximo a Haifa, senti-me parte da história do meu povo. Duas histórias se misturando e se tornando uma única história viva, como se em todo o mundo, e ali, principalmente, eu e cada judeu portássemos a tinta usada para escrever o nosso rumo.



Escrito por Eduardo S. às 00h54
[ ] [ envie esta mensagem ]


Por que você vai para Israel?

 

– Como foi a viagem?

– Tudo conforme “prometido”, respondi à minha avó, ao voltar ao Brasil anteontem.

Lembrei as palavras bíblicas. “Sai de tua terra, e da terra de tua gente, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei”, D-us comunicou a Abrahão. No mês passado, pedi férias no trabalho e segui o milenar roteiro divino. Houve algumas diferenças no trajeto, é verdade. Afinal, Abrahão saiu da cidade de Ur, enquanto meu ponto de partida foi o Rio de Janeiro. Mas o destino final foi também a Terra Santa. 

– Você veio de onde? – perguntou a funcionária do aeroporto de Londres, cidade onde passei quatro dias, antes de embarcar rumo a Israel.

– Estive na França, para visitar meu irmão.

– Tem parentes em Londres?

– Não.

– No Brasil, você trabalha?

– Sim.

– Vão pagar o seu salário enquanto você estiver aqui?

– É o que está combinado.

– O que você vai fazer em Londres?

– Turismo.

– Depois de Londres você vai para onde?

– Israel.

– Por que você vai para Israel?

A pergunta “Por que você vai para Israel?” foi diferente do modo como a funcionária indagou com relação a Londres. Se ela usasse as mesmas palavras, seria “o que você vai fazer em Israel?”. A sutil distinção me pegou de surpresa. É possível fazer muitas coisas sem ao menos pensar, enquanto uma questão com “por que” demanda resposta que contenha razões, argumentos, justificativas. Para fazer algo você pode simplesmente agir com o instinto. Quando tem um “por que”, não. É sempre algo mais bem pensado, baseado em fortes motivações.  

Por que eu vou para Israel? Repeti a pergunta para mim mesmo, algumas vezes, em silêncio. A funcionária do aeroporto precisava de uma resposta, não poderíamos ficar parados ali, um de frente para o outro, o dia inteiro.

 

*****

 Eu deveria responder o quanto antes. A minha sincera demora talvez a fizesse enxergar em mim um terrorista em potencial, um culpado pego no contrapé de seu discurso, atrapalhado em seu próprio disfarce. O Reino Unido iria a forra pelo 11 de setembro americano e calaria os críticos da guerra do Iraque. Seria a chance de ela me mandar para a sala da polícia federal britânica e mostrar serviço a seus superiores. Brasileiro detido na Europa conta sobre rigor dos seguranças em aeroporto inglês, imaginei as manchetes dos jornais. Por que eu vou para Israel? A pergunta ecoava na minha cabeça, sem resposta que rompesse o silêncio. (continua no post abaixo)



Escrito por Eduardo S. às 11h06
[ ] [ envie esta mensagem ]


*****

 Foram alguns segundos sem verbo que pareceram quatro mil anos.

– Vou para Israel porque gosto do país.

Pela expressão da funcionária, não me pareceu suficiente, e adicionei:

– Vou para Israel porque sou judeu.

– Ok, welcome to London, ela retrucou, sem qualquer sorriso.

As frases a satisfizeram, mas, para mim, ainda não eram a resposta mais completa. Para explicar minha ida a Israel eu precisaria contar uma longa história. Tudo conforme prometido.  



Escrito por Eduardo S. às 11h04
[ ] [ envie esta mensagem ]


Irã: Vassoura, pá e espanador

 

Este mês, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, confirmou seu nome na galeria de líderes que, embora sujos de radicalismo, têm o gosto pelo ofício de faxineiro. Assumiu novamente que deseja “varrer” Israel do mapa. Foi além. Desmentiu o Holocausto e sugeriu duas vezes que o quase sexagenário Estado fosse transferido para Europa, EUA ou Canadá.

 

As potências gritaram. Em outras épocas, poderíamos pensar se por preferirem não imaginar um país judaico incrustado em seus territórios ou se contra a negação do massacre mesmo. Mas, hoje, os judeus têm endereço oficial estabelecido. E, nesse contexto, parece que alguns governos, o mínimo que seja, aprenderam algo seis décadas depois da Segunda Guerra Mundial.

 

Enquanto o presidente do Irã dorme sob a poeira do extremismo, a Alemanha, por exemplo, levou a questão a sério, sem varrer o assunto para debaixo do tapete. A câmara baixa do parlamento alemão declarou que o Holocausto não foi um mito, condenou o empenho de Mahmoud em questionar o Estado de Israel e alertou que a Alemanha tem a obrigação de defender o direito à existência do país. Histórico, não?

 

As declarações do presidente iraniano já estão causando polêmica em outros campos. Se nas Copas do Mundo de futebol em 1994, 1998 e 2002 a grande dúvida foi sobre a participação de Romário (por critérios técnicos), desta vez quem pode ficar de fora é a seleção do Irã. A notícia de que partidos políticos alemães pediriam à Federação Internacional de Futebol (Fifa) que a equipe fosse desclassificada do torneio ecoou na imprensa iraniana. Pois adivinhem quem os jornais do país de Mahmoud acusaram de tentar influenciar a Fifa, para que o Irã não vá à Copa. Acertou quem respondeu Israel.

 

Há 33 anos, ativistas palestinos, por sua vez, não apresentaram qualquer recurso aos comitês responsáveis pela organização das Olimpíadas de Munique. Invadiram o hotel onde se hospedava a delegação israelense e eliminaram do torneio e da vida 11 atletas, em mais um recorde de horror e ousadia. Assim, soam até irônicas as acusações do país árabe contra uma possível manifestação, seja de Israel ou dos partidos alemães, encaminhada à Fifa.

 

Os governos ainda não aprenderam a combater com eficiência a estratégia de ataque do terrorismo, na maioria das vezes, sem nacionalidade, território formado ou rosto. A retórica de Mahmoud, no entanto, nos recorda o tempo em que os ataques anti-semitas partiam, predominantemente, de um Estado nacional organizado. A prática, em geral, é menos intensa, atualmente, mas transmitiu lições fundamentais sobre a maneira de lidar com esse tipo de situação.

 

Seres humanos do mundo inteiro lembram o Holocausto com vontade de esquecê-lo. Lembram com o desejo de que nunca tivesse ocorrido. Lembram com a intenção de que não se repita. Isso tem sido importante para ensinar boa parte dos líderes mundiais, como os da Alemanha, a combater velhos sintomas. E trabalhar a favor da difícil tarefa de restringir algumas expressões, como “varrer” Israel do mapa, a páginas amareladas e tristes dos livros de História.    

 



Escrito por Eduardo S. às 21h27
[ ] [ envie esta mensagem ]


Sinagogas ou museus

 

Há seis anos, quando estive em Praga, capital da República Tcheca, visitei um templo judaico que já não funcionava mais como sinagoga. Em vez disso, havia se tornado um museu judaico. Pela primeira vez, percebi que as sinagogas poderiam perder em algum momento suas funções básicas de congregação e oração. Por quê? 

 

É possível que as sinagogas não sejam para sempre sinagogas. Podem encerrar seus serviços por diversas razões. Dispersão dos judeus e assimilação, por exemplo. Na Faixa de Gaza, recentemente, muitas foram demolidas pelos árabes, após devolução de terras por Israel ao governo palestino. Perderam motivos para existir em uma porção de terra sem expressiva quantidade (ou nenhuma) de judeus. 

 

Na década de 1940, pelo contrário, existem relatos de que Hitler fez questão de manter intactas algumas sinagogas européias, pois apresentaria ao mundo ariano a grandeza do povo que ele gostaria de ter destruído. 

 

Minha estadia em Praga resumiu-se a quatro dias de um dezembro do século XX, suficientes para perceber que nem as sinagogas são eternas. Quando a guia do passeio contou que o museu havia sido uma sinagoga, eu não soube se era para exaltarmos a importância de ter-se preservado o passado ou lamentarmos o fim da vida comunitária no presente.

 

Ao se fechar uma instituição judaica – sinagoga ou qualquer outra – uma cultura deixa de ser transmitida, valores milenares se tornam menos acessíveis, um espaço de convivência desaparece.

 

A comunidade perde tanto em pluralidade de lugares quanto de pensamentos sobre suas condições atuais, seus rumos. É o enfraquecimento. Uma comunidade maior favorece a diversidade, a renovação de idéias. O próprio crescer. Entretanto, no Rio de Janeiro, não é difícil encontrarmos instituições, como clubes e escolas, que sofrem com o esvaziamento e precisam fechar.

 

Os judeus não podem se desinteressar pelo seu grupo. Todo dia temos a chance de pensar sobre nossa comunidade, prestigiar suas instituições, estar de alguma forma em contato com a tradição judaica. É a chance de escolher entre manter ativas escolas, clubes, associações e outros espaços de convivência ou, pouco a pouco, começar a planejar a maneira de preservá-los como a tal sinagoga de Praga, que virou museu.  



Escrito por Eduardo S. às 21h11
[ ] [ envie esta mensagem ]


Entrevista

 

O palestino Bassem Eid, que fundou o Grupo Palestino de Monitoramento de Direitos Humanos, foi o entrevistado da edição 1933 da Revista Veja, de 30 de novembro de 2005 (a do Palocci na capa). Pelo próprio título da matéria, Também temos culpa, nota-se que o texto é artigo raro na imprensa brasileira.

 

Eid mostrou-se equilibrado e realista ao analisar a questão do Oriente Medio:. "Não temos autocrítica e estamos pagando por isso", declarou, além de dizer que a ocupação israelense virou desculpa para os próprios erros de seu povo. 

 

*****

Sefaradi x Ashkenazi

 

Relendo alguns jornais cariocas da última semana de novembro, deparei-me com a seguinte frase, relacionada a Amir Peretz, líder do partido trabalhista de Israel: “Por ser sefardita (judeu dos primeiros israelitas de Portugal e da Espanha), é malvisto por parte da mídia israelense”.

 

Não pude deixar de encarar com bom humor o fato de um jornal brasileiro chamar a atenção a uma “rixa” tão peculiar das comunidades judaicas. Mas desconfio de que a origem sefaradita de Peretz pouco influencie a opinião pública israelense, cujos antepassados são provenientes dos mais variados lugares do planeta, inclusive, a península ibérica. Quem mora em Israel que me corrija se eu não estiver certo.    

 



Escrito por Eduardo S. às 21h11
[ ] [ envie esta mensagem ]


Eu sou judeu

 

Certa vez, ouvi de uma senhora judia que a palavra “judeu” traria uma espécie de peso. Não o peso justificado pela história do povo ou por suas belas tradições. Mas o do aspecto negativo; da visão que, preconceituosamente, outras pessoas construíram sobre os judeus. 

 

Sem perceber, esta senhora, que muito preza pela fé e cultura judaica, incorporou não apenas o estímulo do possível ranço anti-semita de qualquer sociedade, porém, um outro fator. E que pode gerar comentários ofensivos ou constrangedores para os judeus tanto quanto o anti-semitismo: o desconhecimento de grande parte da população brasileira sobre o que é judaísmo.

 

Separo anti-semitismo e desconhecimento. O primeiro pode ser gratuito, fruto da irracionalidade humana, do incentivo ao ódio, propositalmente baseado em argumentos falsos. Sem motivos, traz revolta, repulsa, agressão. Já o desconhecimento é despretensioso, sem intenção, faz as pessoas reproduzirem em suas falas o imaginário do “judeu pão-duro”, do “povo fechado”, do “mataram Jesus”. Representa o custo da ignorância, evidente em qualquer classe social.

 

Isso quer dizer que o dever da comunidade para extinguir uma boa parcela das besteiras ditas a respeito dos judeus oferece uma tarefa principal, a de transmitir informações. Infelizmente, muitas vezes, aparecemos como os primeiros a negar ou disfarçar o que somos, o que sabemos ou o que deveríamos saber a respeito da própria tradição.

 

– Subir de escadas “nesse tal shabat” é mais trabalhoso do que de elevador, não? – pergunta um não-judeu.

 

É o suficiente para alguns judeus não apenas concordarem, sem explicar o verdadeiro motivo da prática, como também desqualificarem o gesto e proclamarem:

 

– Eu não faço isso. É costume somente para os mais ortodoxos, aqueles de preto.

 

Se há desejo de reduzir o preconceito contra o judaísmo e a comunidade judaica, é preciso que o judeu conheça a cultura da qual faz parte. Nesse caso, não se exige dele o cumprimento do shabat, das leis de kashrut, a colocação diária do Tefilin ou a simples concordância com leis e mandamentos.

 

É necessário apresentar o judaísmo como fé e tradição, com sua lógica própria e perfeitamente possível. Demonstrar que os costumes (também as ‘mitzvot’) têm explicações, mesmo que não se pratique nem esteja de acordo com eles, por qualquer razão.

 

No Brasil, há tolerância religiosa. Muito dificilmente os judeus são obrigados a dissimular sua identidade. À pergunta “Qual a sua religião?”, já vi muitas respostas, no estilo “sou de origem judaica”, “sou descendente de judeus”, “minha família é judia”, “sou israelita”. Há, inclusive, justificativas, do tipo “sou judeu mas não pratico”, “mas estou distante”.

 

Não é preciso justificar, nem amenizar o judaísmo de cada um. Não se deve carregar o peso atribuído pelos anti-semitas à palavra judeu. Pronuncie a leveza de um “Eu sou judeu”, “eu sou judia”. Conheça e explique. O mar de ignorância não demanda a interferência divina. Cabe a homens e mulheres dar passagem à informação.    



Escrito por Eduardo S. às 16h03
[ ] [ envie esta mensagem ]


Carne na brasa

 

Há barulho e protesto contra a visita do presidente americano, George Bush, ao Brasil. Manifestantes já queimaram, em Brasília, um boneco simbolizando o líder texano, bandeira dos EUA e, como não poderia faltar, bandeira de Israel. George chegou à capital federal no sábado, 5 de novembro, às 19h.

 

Os jornais dizem que ele vem sob o clima pesado da IV Cúpula das Américas, em Mar del Plata, na Argentina. A mídia, em geral, vem tratando de temas que surgirão nas reuniões com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, esses assuntos deixarei para a grande imprensa, porque vou falar mesmo é do cardápio oferecido por Luiz ao ilustre visitante.

 

Imaginem vocês, no momento em que mais de cerca de 40 países embargam a carne bovina brasileira, devido à febre aftosa, o comandante da maior potência mundial vai comer, por aqui...churrasco! Isso mesmo. E ainda há pessoas reclamando da má vontade dos EUA com relação ao Brasil.  

 

O deputado federal Chico Alencar é uma. Ele participou de manifestações em frente ao consulado americano, no Rio de Janeiro, e criticou a recepção ao presidente americano, como relatado no jornal “O Globo”:

 

– Essas amabilidades, que vão além das cordialidades normais, são muito negativas. O Brasil tem que ter uma postura de maior autonomia. Esse churrasco, que é feito com dinheiro público, é totalmente desnecessário, disse.

 

Posso estar errado, mas não acredito em churrasco como perda de autonomia nacional, nem como cordialidade exagerada. Há gestos piores, tão deselegantes, que deveriam ser extinguidos e que contribuem muito mais para piorar a imagem de nosso governo, tanto no âmbito interno como no externo, a exemplo da corrupção.

 

Aliás, uma parte insignificante da enorme quantidade de dinheiro público que membros do antigo partido de Chico “privatizaram” poderia sustentar os comes e bebes para os cerca de 20 convidados do churrasco na Granja do Torto. Particularmente, não me custaria valor maior do que R$ 400 reais para alimentar o mesmo número de amigos. Mas como quem vai gastar é o governo, a gente nunca sabe...

 

George, então, conhecerá o típico Brazilian Barbecue. Não deve beber, pois já admitiu ter tido problemas com o alcoolismo na juventude. Em compensação, Lula aprecia cerveja e cachaça. Mesmo assim, é recomendável evitar excessos aos olhos de jornalistas do New York Times. No fim da tarde, futebol é uma boa pedida. Seria ótimo o texano se familiarizar com o esporte, afinal, nesse campo a Venezuela não traz problemas para ninguém.

 

Vale ainda uma conferida nas condições climáticas. A previsão do tempo de domingo para Brasília é de céu nublado, com mínima de 17ºC e máxima de 28ºC. Nos protestos realizados na capital, um manifestante chegou a gritar que a chuva, atrapalhando a massa, parecia estar “a serviço do império”. Pelo menos a chuva, porque furacões e tornados estão contra. Somente nos resta desejar aos presidentes um bom apetite!

 



Escrito por Eduardo S. às 20h14
[ ] [ envie esta mensagem ]


Breve apresentação

A história do povo judeu tem mais de cinco mil anos. Este blog trará, quinzenalmente, percepções sobre fatos que, de alguma forma, se relacionam com a vida das comunidades judaicas no mundo, principalmente, a brasileira.



Escrito por Eduardo S. às 20h13
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico
30/09/2007 a 06/10/2007
30/07/2006 a 05/08/2006
02/07/2006 a 08/07/2006
18/06/2006 a 24/06/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
18/12/2005 a 24/12/2005
04/12/2005 a 10/12/2005
13/11/2005 a 19/11/2005
30/10/2005 a 05/11/2005




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 Blog do Aluxo
 Viva voz