Ha mais de cinco mil anos


Eu sou judeu

 

Certa vez, ouvi de uma senhora judia que a palavra “judeu” traria uma espécie de peso. Não o peso justificado pela história do povo ou por suas belas tradições. Mas o do aspecto negativo; da visão que, preconceituosamente, outras pessoas construíram sobre os judeus. 

 

Sem perceber, esta senhora, que muito preza pela fé e cultura judaica, incorporou não apenas o estímulo do possível ranço anti-semita de qualquer sociedade, porém, um outro fator. E que pode gerar comentários ofensivos ou constrangedores para os judeus tanto quanto o anti-semitismo: o desconhecimento de grande parte da população brasileira sobre o que é judaísmo.

 

Separo anti-semitismo e desconhecimento. O primeiro pode ser gratuito, fruto da irracionalidade humana, do incentivo ao ódio, propositalmente baseado em argumentos falsos. Sem motivos, traz revolta, repulsa, agressão. Já o desconhecimento é despretensioso, sem intenção, faz as pessoas reproduzirem em suas falas o imaginário do “judeu pão-duro”, do “povo fechado”, do “mataram Jesus”. Representa o custo da ignorância, evidente em qualquer classe social.

 

Isso quer dizer que o dever da comunidade para extinguir uma boa parcela das besteiras ditas a respeito dos judeus oferece uma tarefa principal, a de transmitir informações. Infelizmente, muitas vezes, aparecemos como os primeiros a negar ou disfarçar o que somos, o que sabemos ou o que deveríamos saber a respeito da própria tradição.

 

– Subir de escadas “nesse tal shabat” é mais trabalhoso do que de elevador, não? – pergunta um não-judeu.

 

É o suficiente para alguns judeus não apenas concordarem, sem explicar o verdadeiro motivo da prática, como também desqualificarem o gesto e proclamarem:

 

– Eu não faço isso. É costume somente para os mais ortodoxos, aqueles de preto.

 

Se há desejo de reduzir o preconceito contra o judaísmo e a comunidade judaica, é preciso que o judeu conheça a cultura da qual faz parte. Nesse caso, não se exige dele o cumprimento do shabat, das leis de kashrut, a colocação diária do Tefilin ou a simples concordância com leis e mandamentos.

 

É necessário apresentar o judaísmo como fé e tradição, com sua lógica própria e perfeitamente possível. Demonstrar que os costumes (também as ‘mitzvot’) têm explicações, mesmo que não se pratique nem esteja de acordo com eles, por qualquer razão.

 

No Brasil, há tolerância religiosa. Muito dificilmente os judeus são obrigados a dissimular sua identidade. À pergunta “Qual a sua religião?”, já vi muitas respostas, no estilo “sou de origem judaica”, “sou descendente de judeus”, “minha família é judia”, “sou israelita”. Há, inclusive, justificativas, do tipo “sou judeu mas não pratico”, “mas estou distante”.

 

Não é preciso justificar, nem amenizar o judaísmo de cada um. Não se deve carregar o peso atribuído pelos anti-semitas à palavra judeu. Pronuncie a leveza de um “Eu sou judeu”, “eu sou judia”. Conheça e explique. O mar de ignorância não demanda a interferência divina. Cabe a homens e mulheres dar passagem à informação.    



Escrito por Eduardo S. às 16h03
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico
30/09/2007 a 06/10/2007
30/07/2006 a 05/08/2006
02/07/2006 a 08/07/2006
18/06/2006 a 24/06/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
18/12/2005 a 24/12/2005
04/12/2005 a 10/12/2005
13/11/2005 a 19/11/2005
30/10/2005 a 05/11/2005




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 Blog do Aluxo
 Viva voz