Por que você vai para Israel?
– Como foi a viagem?
– Tudo conforme “prometido”, respondi à minha avó, ao voltar ao Brasil anteontem.
Lembrei as palavras bíblicas. “Sai de tua terra, e da terra de tua gente, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei”, D-us comunicou a Abrahão. No mês passado, pedi férias no trabalho e segui o milenar roteiro divino. Houve algumas diferenças no trajeto, é verdade. Afinal, Abrahão saiu da cidade de Ur, enquanto meu ponto de partida foi o Rio de Janeiro. Mas o destino final foi também a Terra Santa.
– Você veio de onde? – perguntou a funcionária do aeroporto de Londres, cidade onde passei quatro dias, antes de embarcar rumo a Israel.
– Estive na França, para visitar meu irmão.
– Tem parentes em Londres?
– Não.
– No Brasil, você trabalha?
– Sim.
– Vão pagar o seu salário enquanto você estiver aqui?
– É o que está combinado.
– O que você vai fazer em Londres?
– Turismo.
– Depois de Londres você vai para onde?
– Israel.
– Por que você vai para Israel?
A pergunta “Por que você vai para Israel?” foi diferente do modo como a funcionária indagou com relação a Londres. Se ela usasse as mesmas palavras, seria “o que você vai fazer em Israel?”. A sutil distinção me pegou de surpresa. É possível fazer muitas coisas sem ao menos pensar, enquanto uma questão com “por que” demanda resposta que contenha razões, argumentos, justificativas. Para fazer algo você pode simplesmente agir com o instinto. Quando tem um “por que”, não. É sempre algo mais bem pensado, baseado em fortes motivações.
Por que eu vou para Israel? Repeti a pergunta para mim mesmo, algumas vezes, em silêncio. A funcionária do aeroporto precisava de uma resposta, não poderíamos ficar parados ali, um de frente para o outro, o dia inteiro.
*****
Eu deveria responder o quanto antes. A minha sincera demora talvez a fizesse enxergar em mim um terrorista em potencial, um culpado pego no contrapé de seu discurso, atrapalhado em seu próprio disfarce. O Reino Unido iria a forra pelo 11 de setembro americano e calaria os críticos da guerra do Iraque. Seria a chance de ela me mandar para a sala da polícia federal britânica e mostrar serviço a seus superiores. Brasileiro detido na Europa conta sobre rigor dos seguranças em aeroporto inglês, imaginei as manchetes dos jornais. Por que eu vou para Israel? A pergunta ecoava na minha cabeça, sem resposta que rompesse o silêncio. (continua no post abaixo)
Escrito por Eduardo S. às 11h06
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|