Ha mais de cinco mil anos


Crenças

 

Do Brasil a Israel. Parti do Rio de Janeiro, a cidade onde já não se crê em mais nada, com destino a Jerusalém, a cidade onde há sempre motivo para ter fé em alguma coisa.


***

Lição do dia

 

Na rua Yafo, famosa via de Jerusalém, cheguei a uma casa de sucos. Meu objetivo era degustar os sabores mais tradicionais que jorram da terra santa. Depois de beber um suco de laranja, fruta símbolo do país, não consegui me lembrar como se dizia o nome de outra importante espécie israelense. E travei o seguinte diálogo:

 

– Vocês têm suco daquela fruta cujo número de sementes corresponde às 613 mitzvot?

 

Vendo que eu estava dando uma grande volta para fazer um pedido tão simples, o vendedor sorriu e replicou:

 

– Ah, Romã? Em hebraico, chama-se rimon. Mas não temos, não. Está fora de época.

 

Não matei a sede de rimon, mas matei a sede de saber.

                                                                                         ***
Responsabilidade

 

O primeiro pertence que precisei usar em Israel? Um mapa. O primeiro livro que me vinha à mente? O dicionário de hebraico. O primeiro local que procurei para buscar informações? A central de apoio ao turista. Eu era estrangeiro na terra que me prometeram. Estava perdido entre os indivíduos da minha própria nação.

 

Ao examinar o passaporte brasileiro, a encarregada do aeroporto se espantou:

 

– Seu sobrenome é Shor?!

– Sim, respondi. 

– Seus pais já moraram em Israel ou algo do gênero?

 

– Por quê? – Pensei comigo mesmo. Só posso ter o sobrenome sob essa condição?

Eu deveria ter respondido que meus antepassados estiveram no Monte Sinai, ali nos arredores, para receber um documento histórico de uma entidade muito importante; porém, mantive a postura sem querer soar irônico:

 

– Não. Eles nunca estiveram em Israel. Por quê?

– Porque seu sobrenome é em hebraico, tipicamente israelense. 

– Talvez pelo fato de eu ser judeu, emendei. 

 

A funcionária fez cara de aprovação, autorizou a entrada e me devolveu o passaporte. Foi uma excelente forma de me dar boas vindas. Mais tarde, já no hotel – no exato momento em que compreendi não ser a identificação com Israel uma simples questão de mapas, dicionários ou centrais de apoio ao turista – percebi a real dimensão do que presenciava. A conexão com a terra é algo mais transcendental. (continua no post abaixo) 



Escrito por Eduardo S. às 01h39
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Nas longas caminhadas pelas ruas; nos cartões postais a enviar; na minha barba por fazer; e no meu rosto seis anos mais velho desde a primeira vez que estive em Tel Aviv, senti-me parte da história da minha família. Nas pedras e nas sinagogas de Jerusalém, na face da população, na cultura judaica às vistas ou em um kibutz próximo a Haifa, senti-me parte da história do meu povo. Duas histórias se misturando e se tornando uma única história viva, como se em todo o mundo, e ali, principalmente, eu e cada judeu portássemos a tinta usada para escrever o nosso rumo.



Escrito por Eduardo S. às 00h54
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