Israel no Líbano e um judeu na diáspora
Algumas pessoas me perguntaram, desde o início dos ataques israelenses ao Líbano, sobre o que eu acho a respeito dessa nova guerra. Sinto muito, mas talvez minha resposta não satisfaça. A verdade é: eu não quero ter opinião.
O que não falta no Brasil é gente querendo ter opinião sobre o conflito. A ausência da minha não fará diferença. O jornal que assino exibiu nos primeiros dias da guerra a manchete sensacionalista “Sangue brasileiro no Líbano”, para relatar o drama de nossos conterrâneos vítimas dos bombardeios. Dias depois, estampou fotos de israelenses bronzeando-se em Tel Aviv, em contraponto a libaneses agonizando nos hospitais de Beirute. Tudo como se o Hezbollá fosse um clube de golfe.
Um grupo de parlamentares recorreu ao Itamaraty, para cobrar posição mais firme sobre a guerra. Enquanto isso, o edifício onde moro está cercado de grades, para evitar assaltos, e preciso avançar sinal à noite para não ser roubado. Há alguns meses, um motorista teve seu carro roubado na blitz falsa, em área que transito com freqüência. Bandidos queimam ônibus, políticos desviam dinheiro de impostos, sem terra destroem o Congresso, cidadãos são acomodados no chão de hospitais públicos, aulas param por causa de tiroteio na favela e crianças pobres trabalham, em vez de estudar. Quem está cobrando posição mais firme por nós?
Israel tem direito a se defender de ataques que ameacem a segurança de seus cidadãos. Mas não sou eu que vou aprovar ou desaprovar seus métodos. É uma questão para a sociedade israelense discutir. Estou tão distante que uma bomba em Haifa não alteraria o meu cotidiano, como a ameaça de um seqüestro relâmpago no Rio de Janeiro faria. Vale a pena sacrificar a vida de jovens soldados que poderiam estar curtindo uma boate em Eilat? Que poderiam estar se dedicando aos estudos na Universidade de Jerusalém?
Nem a sociedade israelense sabe. Um eleitor do partido de esquerda Meretz terá uma resposta diferente daquele que vota no direitista Likud. Mas a ambos cabe opinar, já que estão em Israel. Para mim, à distância, é muito bonito hastear a bandeira do pacifismo, enquanto um ônibus pode explodir do outro lado do Atlântico sem me ferir. Também é muito cômodo dizer que precisamos invadir o Líbano, enquanto desligo a TV para dormir e soldados de 19 anos vestem a farda para lutar. Sinto-me desconfortável em emitir opinião nessas condições.
Apoiar uma guerra como essa é decidir até que ponto se está disposto a abrir mão da própria rotina para reconquistar a estabilidade desejada. É avaliar se a alternativa bélica, física e psicologicamente desgastante, compensa. É aceitar que se pode perder a vida em prol da mudança de cenário. Envolve questões fora do meu alcance, aqui no Brasil. Não acredito que eu tenha o direito de opinar da mesma forma que um sujeito nas proximidades do front.
Escrito por Eduardo S. às 00h37
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