Os que foram e os que ficaram
O mundo é dividido entre os que foram e os que ficaram. A história das pequenas e das grandes tragédias tem algum capítulo sobre os que escaparam por pouco e os que não tiveram como fugir. A situação socioeconômica ou política de diversas regiões, freqüentemente, impõe aos homens as questões: a hora de buscar novos rumos é esta ou se pode esperar um pouco mais? Será necessário partir atrás de estabilidade hoje, ou em certo momento o cenário voltará a ser tranqüilo?
Durante a ditadura militar, no Brasil, foi necessário que muitas pessoas contrárias ao regime e perseguidas pelo governo se exilassem no exterior. Houve os que acabaram mortos aqui. Na época do Holocausto promovido pelos nazistas, em vários relatos, pequenos detalhes decidiram quem foi transportado para os campos de concentração e quem, na própria Europa ou migrando para outros continentes, sobreviveu. Existem exemplos fora da esfera de guerras e perseguições. Na crise econômica argentina da primeira metade desta década, houve um aumento no registro de migração de membros da comunidade judaica local para Israel. Gente que não pôde ou não quis esperar.
O Rio de Janeiro recebeu inúmeros imigrantes de outros países no século XX. Uma incursão atenta na genealogia de famílias judias, por exemplo, apontará que muitas delas estão no país há menos de três ou quatro gerações. Somente entre 1925 e 1935, o Brasil recebeu mais de 30 mil judeus da Europa Oriental, sendo que, aproximadamente, 15 mil se estabeleceram no Rio.
Minha família chegou ao Brasil nos anos 1930, fugindo a condições difíceis em seus locais de origem. Comparado às perseguições em outras partes do mundo, o país pôde ser considerado um paraíso judaico nos trópicos. O resultado é que marginalização e leis restritivas, como se viu em outros lugares, em nada combinam com a condição da comunidade judaica brasileira atual. O que se vê agora é uma integração completa dos judeus ao meio que os cerca.
Eles não precisam lutar para deixar a condição de cidadãos de segunda classe, nem se recolher às barreiras do gueto em determinado horário. Não há leis que os proíbam de ocupar qualquer cargo que seja, em qualquer atividade profissional. Dominam o idioma português e têm liberdade para praticar sua religião, ou manter sua cultura.
Os judeus não têm ou deixam de ter mais dificuldades que os brasileiros por serem judeus. Nesse contexto, sinto, cada vez mais, que os problemas do país têm influenciado o meu cotidiano: caos aéreo, crise de energia elétrica e níveis de criminalidade acentuados são alguns exemplos. Questões que põem em cheque o bem-estar das pessoas e contribuem para o comprometimento de suas liberdades.
Até quando será possível tolerar as conseqüências desses problemas? Seremos capazes de resolvê-los? Se não conseguirmos resolvê-los, morar em outro país é uma boa solução? Se for necessário buscar esse rumo, até que momento isso poderá ser feito com tranqüilidade? Sob esse ponto de vista, o mundo é dividido entre os que foram e os que ficaram. Muito do que foi construído depois das pequenas ou grandes tragédias, deve-se à sensibilidade daqueles que souberam tomar a decisão na hora certa.
Escrito por Eduardo S. às 01h13
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|